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Arcebispo Lefebvre, o 'Campeão da Tradição'? Algumas Clarificações

Arcebispo Lefebvre, o 'Campeão da Tradição'? Algumas Clarificações

Author: Yves Congar

O arcebispo Lefebvre nunca poupou esforços para que suas opiniões fossem conhecidas[1]. Deve-se reconhecer que suas ideias e ditos não variaram, e que seu pensamento é simples. Vamos, primeiro, ouvir o que ele tem a falar.

"Eu defenderei", "Lutarei para defender a Tradição". "Precisamos aderir às posições pré-conciliares, e não nos preocuparmos de parecermos atuar contra as atuais diretrizes da Igreja, desobedientes, quando estamos carregando uma Tradição de dois mil anos. Qual deveria ser o critério para a adesão do magistério ordinário? A resposta é: fidelidade à Tradição em sua inteireza". "Se o Santo Padre nos obriga a fazer a escolha crucial entre si e os seus predecessores, nos obrigará a escolher os predecessores, em quem foi fundada a Igreja que viveu durante as eras por meio do Magistério e da tradição apostólica, pois não desejamos nos tornar nem heréticos nem cismáticos, mas tão somente permanecer fiel da antiga Igreja Católica Romana" (Audiência de 11 de Novembro de 1976)" . "A Missa de Pio V é a Missa de vinte séculos, é a missa da tradição" . "A Tradição, para mim, é o magistério da Igreja, infalível por vinte séculos". "Tradição sendo, de acordo com o ensinamento da Igreja, a Doutrina definida para todos os tempos pelo magistério solene da Igreja, é caracterizada por uma imutabilidade que compele o assentimento da fé, não só de nossa geração, mas das gerações futuras também […]. Agora, como poderemos conciliar os ensinamentos da declaração sobre a liberdade religiosa com a Tradição? As reformas litúrgicas com Trento e a Tradição? O movimento ecumênico com os ensinamentos de direito canônico tradicionais a respeito da relação da Igreja com hereges, cismáticos, ateus, descrentes e pecadores públicos?"[2]. Uma conclusão prática é abstraída destas convicções: "Essa casa (Ecône) decidiu, relutantemente, optar pela adesão à Igreja de sempre, recusando o pertencimento da Igreja reformada e liberal". Desobediência ao falso a fim de ser fiel ao verdadeiro. A partir deste momento "somos nós que continuaremos a Igreja"; "nós estamos na verdade porque um não pode estar fora dela quando se continua o que é feito por dois mil anos". "Não estamos em cisma, somos perpetuadores da Igreja Católica; são aqueles que estão produzindo novidades que ameaçam entrar em cisma; estamos simplesmente continuando a Tradição". "Estamos prontos para seguir as instruções do Papa. Mas quando este mesmo Papa não segue as instruções de seus 262 antecessores, não podemos seguí-lo"[3]. ASPECTOS POSITIVOS DESSA ATITUDE. Reconheceremos, primeiramente, não somente a gravidade desses apontamentos, mas também o elemento de verdade contidos nele. Aquilo que é verdadeiro é definitivamente verdadeiro — e isso se aplica aos dogmas trinitários, cristológicos, eucarísticos e eclesiológicos. Isso não implica que estes dogmas definidos no curso da História expressam a completude da Verdade que concerne seu Objeto, ou que eles expressam a melhor formulação dele, mas implica certamente que precisamos respeitá-los. Diríamos até que os textos das melhores autoridades a este respeito dizem que se um bispo, ou mesmo um Papa, expressassem algo contrário à Verdade da Fé, não se deveria ouví-los, pelo contrário, deveríamos condená-los[4]. Evidentemente, uma acusação deste tipo é gravíssima, e por isso, deve ser levada com o máximo rigor de precisão. E por isso eu pergunto: Que dogma o Vaticano II, ou Paulo VI, e suas instruções foram negados ou questionados? Nenhum! De fato, quando certos teólogos levantam este tipo de questão doutrinária, o Santo Padre, os bispos, e mesmo eu, todos denunciamos e condenamos. Então porque não lutarmos pela Fé juntos? Notamos também um outro elemento positivo. Lefebvre retorna exaustivamente para o tema da missa e do "sacerdócio". É o ponto no qual ganha a simpatia de muitos católicos. Muitos, de fato, que não o seguiriam em cisma, dizem: nisto ele está certo. Eu, pessoalmente, lamento que a permissão não foi dada para que a dita missa de Pio V seja celebrada ao lado daquela, dita, de Paulo VI. Por um lado [essa uniformidade do rito] mostra que nada da fé em relação à celebração eucarística mudou (porém o Canon Romano mantém-se na "Oração Eucarística I", e quando eu a celebro, pois, em latim, o que distingue minha celebração da do Arcebispo Lefebvre?). Por outro lado, a profunda sensibilidade de bons católicos, que encontram na celebração tridentina da fé o sinal de sua identidade como católicos, teriam sido melhor respeitados, se a permissão fosse dada. Este é um ponto muito valioso, e muito profundo, digno de nota. Muitos se sentem perdidos porque a expressão de sua identidade como católicos foi-lhes tirada. Infelizmente, os apoiadores do Arcebispo Lefebvre acusam o novo rito eucarístico de promover uma traição à fé da Igreja: ele tornaram a celebração da Missa de acordo com o missal de Pio V — que em muitos casos foi submetido a um número considerável de mudanças desde 1576 — em um instrumento de combate apaixonado contra a reforma de Paulo VI. Isso faz com que uma solução pacífica seja virtualmente impossível. Eu não preciso mostrar a falsidade das acusações feitas, isso já foi realizado em mais de uma ocasião. Lefebvre mesmo já reconheceu, admitiu a validade do novo rito se celebrado com com a fé e a intenção da doutrina eucarística do Concílio de Trento. Mas ele exagera essa doutrina, usando de termos que, de fato, não se encontram presentes nem de forma remota em Trento, como "para renovar o Sacrifício da Cruz".

ERROS E NEGAÇÕES INACEITÁVEIS.

Para que comecemos a fazer as distinções necessárias, precisamos realizar uma síntese crítica dos argumentos apresentados pelo Arcebispo Lefebvre. O farei em três pontos. Nosso arcebispo não menciona nunca os grandes movimentos que foram parte da vida da Igreja durante as décadas que antecederam o Concílio: movimentos sem os quais o Concílio não seria o que foi pois, na medida em que o que eles representavam era legítimo, foram reconhecidos e receberam o selo de aprovação do máximo degrau de autoridade. O movimento litúrgico tem ao menos um século de idade, e sua extensão pastoral vem se desenvolvendo por pelo menos uns bons sessenta anos. Foi respaldado por um trabalho de valor indisputável. Efetivou a possibilidade dos vislumbres mais profundos da Tradição novamente reavivarem a consciência católica. O Movimento Bíblico andou junto, também sustentado por pesquisa séria e apoiado por Pio XII. O Movimento Patrístico, do qual "Catolicismo", de Henri de Lubac, foi o bastião em 1938, já suscitava bons frutos que foram multiplicados no período pós-conciliar. Se o Vaticano II marcou o fim da Contrarreforma, também restabeleceu liames com muitos dos valores dos Santos Padres, ocidentais e orientais. Seu ensinamento sobre o ecumenismo deve-se muito a este aspecto. Um Movimento Ecumênico austero existia, igualmente, e havia uma tomada de consciência de responsabilidade crescente entre os laicos, junto com bispos e padres, para atividades apostólicas e eclesiais… Tudo isso foi em certa medida novo, porém de forma alguma tomou para si um aspecto forçado. Foi se desenvolvendo durante o curso histórico da vida eclesial, continuou a se desenvolver desde o Concílio, e continuará se desenvolvendo no futuro. Tudo isso faz parte da vida histórica da Igreja. Agora, diagnostico em Lefebvre uma certa rejeição das novas aquisições desta vida histórica, uma rejeição ao "mundo moderno", e mesmo uma negligência em relação a problemas novos, que demandam, por sua natureza mesma, soluções novas. "Todas as questões essenciais que se referem à humanidade sempre encontraram sua solução em Jesus Cristo, desde o começo e acima de tudo"; "Aqueles que demandam da Igreja respostas a estes problemas são, eu temo, procurando por respostas já dadas pela Igreja, mas que eles se recusam a aceitar". Estas pessoas excelentes são "O mundo moderno! Elas encontram e inventam um mar de questões com somente um propósito: que a Igreja contradiga seu posicionamento original". Estas últimas citações vem de uma crítica de nosso arcebispo feita em 1964, contra o schema conciliar sobre a Igreja e o Mundo moderno. Interessante notar que este documento e o documento que viria a se tornar Nostra Aetate foram os dois que, na época, nosso arcebispo negou assinar. Ambos falam e adereçam o momento presente, envolvem um elemento de aceitação com uma nova configuração dos fatos. Poderia-se fazer afirmações similares no âmbito de estudo da catequese (um termo que Lefebvre rejeita!) e do sínodo romano de 1977. Para Lefebvre o moderno deve ser rejeitada enquanto tal: ele desvia e transfigura, comumente, "moderno" e "modernista" como sinônimos. Isto porque o que é "moderno" estaria infestado de "Liberalismo" — voltarei a falar sobre este termo ulteriormente. Assim, sobre o que ele descreve como a tradição "de sempre", o magistério "de sempre", lista o que completa organicamente a "doutrina de Trento": A bula Auctorem fidei de Pio VI contra Pistoia, Mirari vos de Gregório XVI contra Lamennais, Quanta cura e o Syllabus de Pio IX, Immortale Dei de Leão XIII "condenando a nova lei", os atos de São Pio X contra Le Sillon e o Modernismo, Divini Redemptoris de Pio XI contra o comunismo e finalmente Humani Generis de Pio XII. Todos esses documentos são contra: contra erros, contra tendências, contra o "liberalismo". Não podemos ignorar uma certo tom político nessas posições claramente definidas. Lefebvre rejeita sua pecha de ter sido um seguidor de Maurras ou da Action Française. Mas (1) ele possui uma noção evidentemente paternalista de autoridade, "a causa formal da sociedade" — e digo isso sem negar, como ele também afirma, nessa caso corretamente, que não existe fraternidade sem paternidade; (2) oferece constantemente como modelos da catolicidade a Espanha de Franco, Portugal de Salazar, Argentina e Chile de Pinochet; (3) Finalmente, todo o mal advém, segundo ele, da Revolução Francesa, com seu lema de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" — "Satanás criou estas palavras chave, que permitiram todos o tipos de palavras modernistas e modernas adentraram o Concílio: liberdade, através da liberdade religiosa; igualdade pela colegialidade, que introduziu os princípio do igualitarismo democrático na Igreja; e finalmente fraternidade, mediante o ecumenismo que abarca heresias e erros, estendendo sua mão para todos os inimigos da Igreja" . Lefebvre trata todas as "condenações" contidas neste documentos, que ele considera como absolutos, como se fossem uma questão de julgamentos dogmáticos reprovando heresias. Ele não distingue, como todo bom historiador, entre a rejeição de erros teológicos formais e o elemento de contingência histórica que constitui a autoridade pastoral, eventualmente reconhecida pela própria Igreja. Ele aglomera junto numa mesma condenação tudo que o desagrada nos movimentos modernos, ecumenismo, e a denominada renovação carismática. A quintessência da heresia é o que ele denomina liberalismo — isto é, um agregado entre a Reforma [Protestante], com a Revolução [Francesa] e liberdade absoluta, deixando tudo ao domínio da consciência: "liberando o homem de toda a amarra que ele não aceite nem queira". A declaração conciliar sobre a liberdade religiosa é comparada, a despeito do que diz expressamente, com o "indiferentismo religioso condenado pela doutrina e pelo ensinamento da Igreja". Se o aspecto histórico do magistério pastoral, se as distinções que necessitam serem realizadas para esse tipo de exame concernente aos movimentos modernos escapam ao Arcebispo Lefebvre, é porque sua mente está alienada por formulações eternalistas[5]. "A Verdade tem um caráter eterno" pois Deus é imutável, e Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre. Os fatos mencionados são incontestáveis em si mesmos, mas eles não excluem a historicidade da nossa percepção e da nossa expressão desta Verdade, acima de tudo em questões que tangem realidade sociais, dinamismo de ideias, atividades dos Estados, como é na grande maioria das afirmações do Syllabus de Pio IX. Isso me dá uma oportunidade de apresentar a forma em que trabalho este importante documento anexado a encíclica Quanta Cura (8 de dezembro de 1864).

O SYLLABUS.

Estes são documentos importantes, Pio IX e Leão XIII assim o disseram. Contém, pois, pronunciamentos doutrinais que temos de respeitar, mesmo que localizados em contextos históricos, sociais e culturais completamente diferentes. Não obstante Vacant, de quem a interpretação totalista do magistério ordinário do Papa não é exortado por mais ninguém[6], não podemos caracterizar a Quanta cura ou o syllabus como ensinamentos infalíveis. Isso é provado a) pelo fato de que esta infalibilidade é negada pelo Mgr. Fesset, que foi secretário para o primeiro Concílio Vaticano, e que tece seu livro recebido e aprovado por Pio IX[7] e b) pelo fato de que o documento foi considerado tão distante de ser um ensinamento infalível que os apoiadores mais fervorosos do magistério papal queriam, justamente, que seu ensinamento fosse proclamado pelo Concílio[8]. Outros, temiam, justamente, pelo risco de que isso acontecesse. Quanta cura não pode ser entendida corretamente exceto dentro do seu contexto filosófico-político. Isso é ainda mais verdadeiro no que tange ao syllabus, que se refere a várias intervenções pontifícias, alocuções consistórias em muitos casos, preocupadas com as situações político-religiosas de seu tempo, em diversos países (México; Europa como um todo; especialmente a Itália)[9]. Em muitas regiões uma espécie de regra "equalizadora" corria irrestritamente, tirando sua inspiração de juristas e filósofos do século XVIII e danosa a libertas Ecclesiae e à autoridade da Sé de Roma. A questão do poder temporal da Santa Sé era também decisiva. Retirar esses pronunciamentos, essas palavras, de seu contexto histórico, é cometer o crime de dar a elas um sentido absoluto e uma significância que vão além e, assim, traem a verdade delas. Isso é particularmente verdadeiro em relação à palavra "liberalismo" . Em seu contexto original, mascarava um racionalismo aplicado pelos poderes do Estado em políticas de cunho antirreligioso[10]. Desde lá, foi ressignificada e desafiada, sob este sentido usado em Pio IX e mesmo em Leão XIII, por um certo Newman (que anunciou o brinde à consciência!) e pelos "católicos sociais" estudados por E. Poulat [11]. Pio IX e Leão XII ainda falavam dentro da perspectiva da "Cristandade" , ou seja, dentro do contexto no qual os poderes temporais eram considerados sujeitos à normas promulgadas pela Igreja, as quais estes Estados tomavam como base para o seu governo. Neste tipo de situação, os princípios permanentes exalados pela missão divina da Igreja são misturados com as condições históricas da lei pública reconhecida, justamente, no período da "Cristandade". Os próprios pontífices reconheciam isto, e não somente Paulo VI, mas Pio XII e, ao menos parcialmente, Pio IX[12]. Da mesma forma, os papas, de Leão XIII até Pio XI, Pio XII e principalmente João XXIII em Pacem in terris, tem deixado cada vez mais clara a posição da Igreja a favor da dignidade humana e seu repúdio em relação a quaisquer regimes restritivos ou práticas de cerceamento; de tal maneira que o documento Dignitatis humanae personae forma parte de uma ruptura contínua[13]. Os papas antes do Vaticano II seguiram o desenvolvimento da sociedade moderna, algo que Lefebvre, infelizmente, se nega a fazer. Isso não significa que a Igreja adota os mesmos princípios que o racionalismo liberal e o secularismo que ela condenou e que o Vaticano II também criticou[14]. O que de fato significa é que nos ensinamentos antigos do magistério exista um substratum básico, um corpo essencial de princípios que temos de sempre respeitar, porém que foram expressos, no passado, em um certo contexto histórico que não é mais o nosso, e que atualmente temos que respeitar de uma forma diferente. Não tenho como desenvolver esta forma aqui, mas gostaria de ilustrar ao menos três exemplos: a) os documentos de Pio IX e Leão XIII contra o racionalismo liberal; b) o axioma elusivamente óbvio "fora da Igreja não há salvação" e os documentos contemporâneos, seja os da Santa Sé sobre o caso Feeney ou do próprio Vaticano II[15]; c) Os desenvolvimentos de vinte, trinta anos da Mortalium Animos (1928) até a instrução Ecclesia Catholica (1949) e até o decreto Conciliar sobre o Ecumenismo[16]. Existe, de fato, uma continuidade de princípio essenciais, e ao mesmo tempo uma evolução, uma expressão nova e distinta de princípios e seus objetivos dentro de um contexto histórico novo e distinto. Essas considerações não constituem uma digressão. Elas nos conduzem ao centro dessas distinções que se relacionam com a noção de Tradição.

A VERDADEIRA NOÇÃO DE TRADIÇÃO. DISTINÇÕES.

A Tradição constitui uma realidade vasta. Devotei uma boa parte de meus esforços ao seu estudo[17]. Significa, para a Igreja, confrontar seu presente e seu futuro à luz de suas raízes passadas. Neste sentido, poderíamos tomar de empréstimo a própria definição do Arcebispo Lefebvre: "é porque nossa fé é a fé do passado, que ela é também a fé do futuro". Tradição é, indubitavelmente, a presença de um princípio em todo o decorrer de sua História. Todavia, para ser mais preciso, existe ao mesmo tempo a identidade do princípio e da realidade histórica das situações, formas e expressões. Isso ocorre pelas seguintes razões: a) A Tradição não é só transmissão, mas também recepção. Nada poderia ser transmitido efetivamente se não fosse recebido. Por isso precisamos, recorrentemente, traduzir e adaptar. Foi isto que aconteceu particularmente em matéria de instituição — liturgia, ministérios, papado. Estas coisas tem uma História! b) A Tradição é um grande rio que, sendo a Revelação e o Evangelho sua fonte, fluiu por muitos territórios durante muitos séculos. Este rio recebeu uma boa dose de afluentes, que amalgamaram suas contribuições com aquela da própria fonte. Existem questões que foram levantadas pelo percurso do tempo em diferentes momentos e climas, por diferentes tendências mundiais ou por distintas heresias. Também existem contribuições próprias de certas culturas, gênios e santos, e ainda mais, da totalidade do Povo de Deus. Tradição, entendida tal como foi dada a nós, é feita pelo conjunto de todas essas variáveis, de forma que é possível distinguir entre as contribuições históricas, associadas à diferentes eras, em certos contextos mais ou menos cambiantes, e entre a qualidade absoluta do Princípio, gradualmente desenvolvido ou esclarecido. Vamos ouvir a vozes, sobre este tema, de três pontífices recentes: "Tradição é algo muito distinto de um simples recrudescimento a um passado que desapareceu: é, na verdade, o exato oposto de uma reação que nega todo o progresso salutar… a palavra progresso indica simplesmente o fato de que marchamos adiante no tempo. Tradição ainda significa um marchar adiante, mas uma marcha contínua, que desvela ao mesmo tempo força e tranquilidade, em harmonia com as leis da vida"[18]. "É acima de tudo necessário que a Igreja não perca contato com sua herança sagrada de Verdade recebida dos Santos Padres, porém concomitantemente deve manter um de seus olhos no presente, nas novas condições e formas de vida introduzidas pelo mundo moderno, que abriram novos caminhos para o apostolado católico… a substância da doutrina antiga contida no depósito da fé é uma coisa; a forma com que esta é formulada, é outra completamente distinta"[19]. "A Tradição não é uma entidade fossilizada ou morta, uma realidade de alguma forma estática, que em um certo ponto na História interrompe a vida deste organismo ativo que é a Igreja, isto é, do Corpo Místico de Cristo. É pelo Papa e pelos concílios ecumênicos que se pode realizar um julgamento, para que se distinga o que nas tradições da Igreja não é possível renunciar sem que sejamos infiéis a Nosso Senhor e Seu Espírito Santo — o depósito da fé — e o que, pelo contrário, deve ser corrigido à luz dos tempos, a fim de facilitar a oração e a missão da Igreja na variedade de locais e tempos, para traduzir a divina mensagem mais eficientemente na linguagem de hoje e para comunicá-la melhor, sem prejuízo indevido. Em síntese, você ouve a si mesmo e àqueles que o seguem. [Você, Lefebvre] Decide parar em um momento particular da vida da Igreja, e ao fazer isto recusa a aderir à Igreja Viva, que é a Igreja de Sempre"[20]. Aqui ficam, pois, estes princípios de esclarecimento, que cremos serem prementes. Este esclarecimento se refere à distinção entre um princípio e suas formas históricas. Nega-se este esclarecimento quando, pela falta de informação, cultura e senso histórico, alguém adota uma posição fixista, eternalista; quando, tendo escolhido o seu polo de referência naqueles que opuseram-se à corrupção travestida de novidade do mundo moderno, faz-se um absoluto da forma com que essa oposição é expressa, confundindo assim a relatividade da História com o absoluto da Fé. Pode-se nomear esta postura de "dogmatismo" ou " ideologia", ou mesmo em termos médicos, de paranoia. É muito triste que uma fidelidade tão sincera e, em si mesma, tão louvável, esteja tão equivocada quanto a sua aplicação! A Igreja precisa desta fidelidade, desde que seja exercitada em comunhão com sua Vida no presente.

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